Setembro Amarelo: a importância de falar sobre a prevenção do suicídio

Setembro Amarelo: a importância de falar sobre a prevenção do suicídio

Entrevista com Cristiane Moreira de Moraes, psicóloga do Hospital Marieta

Durante todo o mês é celebrado o Setembro Amarelo, data de conscientização sobre a prevenção do suicídio. E no conceito da palavra conscientização está a necessidade de pensar sobre o assunto, conversar sobre o tema, perceber se o problema existe e o que será feito para enfrentar. Psicóloga que atua no Hospital Marieta, Cristiane Moreira de Moraes esclarece dúvidas gerais sobre o tema e informa os procedimentos adotados internamente caso situações como estas surjam.

Qual a abrangência deste problema?

Psicóloga Cristiane: Segundo registros da OMS o suicídio é uma das 10 maiores causas de morte em todos os países sendo responsável por 1 milhão de mortes no mundo. Entre pessoas de 15 a 44 anos está entre as três principais causas de morte. Esse número não inclui as tentativas de suicídio que são 10 vezes maiores. O Brasil está na lista dos países com os maiores índices. Do total de mortes, 1% decorre de suicídios. Entre os mais jovens, chega a 4%. De 2004 a 2010 o índice foi de 5,7%. O problema acomete mais homens (7,3%) do que mulheres (1,9%).

Como funciona o trabalho da psicologia com pacientes que deram entrada no Hospital Marieta por tentativa de suicídio? Qual a abordagem utilizada?

Psicóloga Cristiane: O atendimento da Psicologia deve ser sempre acionado nestes casos. Abordamos o paciente de forma empática e não julgadora. Conversamos sobre o assunto de forma direta, porém com muito cuidado deixando que o paciente construa sua narrativa. Estabelecemos uma relação e, quando tiver confiança e sentir-se confortável, falará sobre seus pensamentos e sentimentos. Realizamos uma entrevista clínica para avaliar a frequência, gravidade do caso, se há tentativas prévias, diagnóstico de transtorno mental, se tratado ou não entre outras informações. Os dados da entrevista podem ser obtidos sem muitas perguntas se a escuta for bem feita.

De posse destas informações podemos juntamente com a equipe médica planejar que tipo de intervenção será necessária. Enquanto o paciente estiver internado daremos apoio emocional. A rede de apoio social e tratamento serão acionadas antes da alta.

Como podemos lidar com pacientes que, muitas vezes, encontram-se com a saúde emocional debilitada?

Psicóloga Cristiane: Os pacientes geralmente já estão mais mobilizados emocionalmente devido as peculiaridades de sua saúde física, ou mesmo por não adaptarem-se ao tratamento e internação. Precisamos dar apoio emocional para estes pacientes, ouvi-los, acolhê-los e atendê-los em suas demandas. Quem pode? Todos. Caso percebamos que há uma necessidade premente de atendimento especializado podemos acionar o serviço da Psicologia que fará a avaliação, acompanhamento e encaminhamentos devidos. É importante que toda equipe esteja sensível às peculiaridades desta demanda.

Quando um paciente internado no Hospital Marieta relata que já tentou suicídio o que é feito?

Psicóloga Cristiane: Precisamos ouvir o paciente com atenção sem interrompê-lo com nossas opiniões, lançando mão da escuta acolhedora que já mencionamos. O paciente está em um serviço de saúde e podemos ter em mãos uma oportunidade única de abordar o assunto com ele. Se percebermos que esta referência está relacionada com uma possível ideação, ou quem sabe é um pedido de ajuda aciona-se o médico ou psicólogo para avaliação.

Como a pessoa percebe que está precisando deste apoio? Quando deve procurar ajuda?

Psicóloga Cristiane: Geralmente quem percebe as mudanças no comportamento são as pessoas próximas, mas em geral há um rebaixamento do humor, desinteresse das atividades que gosta (isolamento), queda na produtividade, mudanças no padrão de sono, alimentação entre outros. Se perceber estes sintomas procure alguém de confiança ou um profissional especializado e fale sobre o assunto.

Como podemos ajudar pessoas que falam em tirar a própria vida ou encontram-se com a saúde emocional abalada?

Psicóloga Cristiane: Falar sobre sua vontade de morrer é diferente de cometer suicídio. Todavia se uma pessoa chega a verbalizar que deseja tirar a própria vida revelando pensamentos suicidas precisamos dar atenção usando o que podemos caracterizar como uma escuta acolhedora. Deixe-a falar sem emitir julgamentos. Não temos como mensurar o sofrimento do outro, por isso tenha compaixão e empatia, a pretensão de mudar a qualquer custo os sentimentos e ideias do outro não é ajuda eficiente.

Frases como: “você tem tudo não deveria estar assim” fazem o sujeito sentir-se culpado aumentando a tristeza e o sofrimento. Se uma pessoa sentir que estamos ao seu lado, sentirá alívio e isso é eficaz. A partir de então, a própria pessoa poderá nos ajudar a entendê-la. Encoraje-a a buscar ajuda profissional, neste momento cabem exemplos de pessoas que superaram dificuldades com tratamento. Em casos visivelmente graves a família precisa ser acionada. Se o risco for iminente não deixe a pessoa sozinha. Entre em contato com o serviço de emergência.

Uma mudança brusca e negativa, ou mesmo uma depressão, pode provocar um comportamento suicida?

Psicóloga Cristiane: As causas de suicídio são multifatoriais, envolvendo fatores sociais, culturais, genéticos, psicodinâmicos e filosóficos existenciais. A existência de um transtorno mental e considerada um forte fator de risco para o suicídio, todavia não significa que o suicídio esteja relacionado com transtorno mental, mas o risco é potencial, principalmente quando não tratado. Uma mudança brusca é um fator que chamamos de precipitante, podendo acontecer a tentativa de suicídio nestes casos, todavia por impulso, o transtorno mental é predisponente.

Quais os principais fatores de risco e proteção em pessoas com comportamento suicida?

Psicóloga Cristiane: Os principais fatores de risco são tentativas prévias e presença de transtorno mental. Em 95% dos casos de suicídio foi constatada presença de transtorno mental principalmente de humor como: Depressão e Transtorno Bipolar. Quando associadas à dependência de álcool e de outras drogas psicoativas a situação de risco é agravada. Esquizofrenia e certas características de personalidade também são importantes fatores de risco. Os fatores de proteção são: valor pessoal, confiança em si mesmo, disposição para buscar ajuda quando necessário, apoio e bom relacionamento familiar, boa relação com amigos, colegas e vizinhos, boa alimentação, sono, atividade física entre outros.

Qual a importância do tratamento psicológico?

Psicóloga Cristiane: O psicólogo é um colaborador no processo de autoconhecimento. A psicoterapia é um método útil na ampliação da consciência auxiliando no desenvolvimento de novas capacidades. Se estou consciente, sou responsável por minha cura, por minhas escolhas e isso mobiliza todo o sistema. O psicólogo não tem em si poder para mudar alguém, mas através do diálogo articula juntamente com a pessoa as formas para organização, aceitação, valorização de si próprio. Os resultados nunca são imediatos, nosso comportamento está intimamente ligado às nossas crenças e estas são construídas ao longo de anos e muitas advém de padrões que herdamos de nossos familiares, portanto novas habilidades também carecem de investimentos.

Informações para a imprensa – Oficina das Palavras:
Elaíse Cidral – litoral5@grupoodp.com.br + 55 (47) 9 9994-1265
Ricardo Ruas – ricardo.ruas@grupoodp.com.br + 55 (47) 9 9995-1846

Hospital e Maternidade Marieta Konder Bornhausen

http://www.hospitalmarieta.org.br/

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